INÍCIOCONHEÇA PADRE PEDRONOTÍCIASAÇÕES E PROJETOSCONTATO
Sala de Imprensa

Você está em: Início  Sala de Imprensa  Emir Sader

 Emir Sader

Publicado em 22 de Dezembro de 2006

O ano de 2006 esteve marcado, no plano internacional, pelos avanços das forças progressistas na América Latina e pelo debilitamento do governo Bush, seja na capacidade de resolver as guerras do Iraque e do Afeganistão, seja na falta de apoio para manter a maioria parlamentar e a simpatia da maioria da população estadunidense. Como resultado, aumentou a turbulência internacional e, no continente, as possibilidades de avanços nos processos de integração regional.

Economicamente, foi mais um ano de incremento da demanda por produtos dos paises periféricos. Apesar da situação declinante da economia dos EUA, a constante demanda chinesa manteve o quadro favorável às economias do Sul do mundo.

Foi um ano negativo para a paz no planeta. O Iraque teve seu pior ano desde a ocupação norte-americana, com o acirramento dos conflitos entre sunitas e xiitas, ao mesmo tempo que se deu a intensificação dos ataques às tropas de ocupação.

A derrota de Blair nas eleições britânicas foi atribuída, em grande medida, ao fracasso de solução para a invasão do Iraque, assim como a derrota de Bush nas eleições parlamentares dos EUA teve a ver centralmente com a impotência de impor uma relativa ordem no Iraque.

O aumento da violência teve um elemento cruel, que, mesmo se não fomentado pelas potências de ocupação, seria uma conseqüência imediata de suas políticas. A guerra civil entre sunitas e xiitas, além de afetar profundamente a possibilidade de unidade nacional iraquiana, expõe a população civil a uma escalada de represálias brutal, que produz diariamente vítimas civis às dezenas. Ao mesmo tempo, não se vê alternativa para o conflito: os EUA consideram a retirada das tropas, mas, impossibilitados pelo pântano em que entraram, mandam, ao contrário mais tropas. O conflito desgarra o país, diante de organismos internacionais e governos totalmente ausentes da busca de qualquer tipo de mediação para alguma forma de paz. O Fórum Social Mundial tem, portanto, uma nova chance, em Nairobi, no fim de janeiro, de assumir a responsabilidade de lutar por uma paz justa e duradoura – responsabilidade que se estende aos outros epicentros de guerra no mundo.

Na Palestina, de forma similar, a política norte-americana desembocou em conflitos cada vez maiores entre as correntes mais radicais e moderadas, enfraquecendo a resistência à ocupação israelense e aguçando os conflitos internos. Nenhum processo de paz está em desenvolvimento nesse quadro de dilaceramento da Palestina.

No Afeganistão, a resistência, comandada pelos talibãs, provocou o enfraquecimento da ocupação, intensificando, como nunca desde a chegada das tropas estrangeiras, a violência no país.

A “pax americana” se revela portanto um estado de guerra permanente, diante da covardia e da renúncia das outras forças políticas para tentar frear o dessangramento sem fim, com sofrimento e dor por parte de milhões de pessoas. Governos europeus, ONU, governos latino-americanos, asiáticos, se comportam como se fosse uma fatalidade do destino, diante da qual não têm responsabilidades. A humanidade fica entregue aos desígnios da potência imperial e sua política de generalização dos focos de guerra no mundo.

O cenário onde houve mudanças importantes foi a América Latina, com o fortalecimento do processo de integração regional e o enfraquecimento da política estadunidense. As reeleições de Lula no Brasil e de Hugo Chávez na Venezuela – somadas à provável reeleição de Kirchner na Argentina em 2007 –, junto ao início do governo de Evo Morales na Bolívia e às eleições de Rafael Correa no Equador e de Daniel Ortega na Nicarágua, estenderam o campo de governos que privilegiam a integração regional em detrimento dos tratados de livre comércio levados a cabo pelos EUA. Estes evoluíram do Chile para a Colômbia e o Peru, mas a maioria conquistada pelos democratas no Congresso dos EUA ameaça com a rediscussão destes dois últimos, colocando em risco especialmente o assinado com o Peru, pelos laços que Alan Garcia estabeleceu com o Brasil e a Venezuela.
O ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul, caminho que deve ser seguido pela Bolívia e pelo Equador, além da aproximação de Cuba ao novo bloco, complementam um quadro mais favorável do que nunca à extensão e ao aprofundamento dos processos de integração regional.

O personagem do ano na política internacional foi sem dúvida Evo Morales. O primeiro presidente indígena da Bolívia, em um ano, fez avanços extraordinários na plataforma com que foi eleito, com votação inédita no país. Nacionalizou o gás, convocou e deu início aos trabalhos da Assembléia Constituinte para refundar o Estado boliviano conforme critérios multinacionais e multicivilizatórios e começou a reforma agrária, além de romper com o modelo econômico neoliberal e centrar suas políticas em objetivos sociais. Morales enfrenta feroz resistência da oligarquia separatista da região de Santa Cruz de la Sierra, à proporção dos riscos que os interesses estreitos dessa oligarquia são afetados pelo novo governo. Na Bolívia, portanto, se desenvolve o processo político mais importante da América Latina na atualidade, combinando mobilização social e étnica, com projeto político de hegemonia democrática e popular.

O ano de 2007 verá o desfecho dos conflitos atuais e o início do governo equatoriano, que também deve convocar uma Assembléia Constituinte, ao mesmo tempo que, pela primeira vez, uma força de esquerda pode triunfar nas eleições paraguaias, com a candidatura de um padre identificado com as novas correntes políticas latino-americanas, estendendo assim o fenômeno político mais importante no mundo desde o princípio da declinante era neoliberal.


 


Padre Pedro 13987 - Deputado Estadual © 2021. Todos os direitos reservados.